Fonoaudiologia e PEI na Doença de Alzheimer

10.08.2007 | Tatiana Jorgensen

Kombuwa

Figura 1. Cérebro humano deteriorado

Queremos compartilhar a evolução do caso de uma senhora, com quadro neurológico de Doença de Alzheimer (DA), que vem sendo atendida há um ano e quatro meses. O plano terapêutico tem, como base, a Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural e os recursos selecionados são PEI Básico e Fonoterapia Convencional direcionada à alterações de Linguagem/fala.

Para identificar a paciente, adotaremos um nome fictício. Laura, 76 anos, mora com um dos filhos e é acompanhada por excelentes cuidadoras. A família é bastante participativa e interessada no tratamento da doença e na melhoria da qualidade de vida desta senhora.

Etapas do Tratamento

Durante os oito meses inciais, aproximadamente, permaneciam na sala de atendimento, a fonoaudióloga e aplicadora do PEI, a especialista em mediação e a cuidadora. O objetivo da presença da cuidadora é tornar consciente a importãncia de seu papel como mediadora ao lidar com Laura. Nessa etapa, aplicamos as primeiras páginas do Instrumento Organização de Pontos (PEI Básico), associando essa ferramenta a outras estratégicas terapêuticas necessárias.

Do oitavo mês até Abril de 2007, iniciamos um trabalho específico para as questões da Linguagem e Fala através da Fonoterapia Convencional. É importante ressaltar que, em nossa opinião, não há como dissociar tais questões do aspecto cognitivo. Portanto, embora tenham sido utilizados, nessa fase do tratamento, outros recursos que não os Instrumentos do PEI B, toda a estimulação baseou-se nos conceitos da Experiência de Aprendizagem Mediada.

Funções Mentais Superiores como Identificação, Comparação e Classificação foram requisitadas nessa etapa, lembrando que a seleção dos conceitos e atributos foi bastante criteriosa levando em conta o nível de compreensão demonstrado pela paciente. Tratando-se de um quadro neurológico degenerativo onde conceitos e funções já foram “perdidas”, citamos a Plasticidade Neuronal, onde é possível que, mesmo “perdidas”, se manifestem em algum grau.

Parece pertinente deixar, aqui, um questionamento acerca desse assunto:

Até que ponto as Patologias Neurológicas Progressivas permitem a “reativação” de Funções Cognitivas consideradas ausentes por falta de manifestação destas em AVDs e/ou nas testagens realizadas por estudiosos e profissionais diversos?

para saber mais…

Programa de Enriquecimento Instrumental
18.08.2007

Conhecido no Brasil como PEI, o programa é um método de estímulo cognitivo que objetiva otimizar o potencial de aprendizagem, tornando o indivíduo autônomo no processo do aprender. Baseado na teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural de Reuven Feuerstein, o programa é ministrado por mediadores formados pelo Núcleo do Desenvolvimento do Potencial Cognitivo.

da categoria: Links Úteis

Plasticidade Neural e Alzheimer
02.09.2007

“Pesquisas recentes têm se voltado para o estudo da plasticidade neural em idosos saudáveis e com DA, e seus últimos achados têm sido animadores, pois há a hipótese de que por meio da ativação de áreas seletivas do cérebro durante a vida este pode ter a possibilidade de se proteger contra o processo degenerativo (Rosenzweig e Bennett, 1996). Além disso, há suposições de que certo nível de plasticidade neural persiste durante a terceira idade e na DA.”

Ana Maria Alvarez

Renata Ávila

Isabel Albuquerque M. de Carvalho

Breves Relatos

Avaliação Inicial

Seus comportamentos podem ser classificados na fase intermediária da DA, sem que, necessariamente, apresente todos os comprometimentos sugeridos em literatura especializada.

Nesta fase, os sintomas da fase inicial se agravam, podendo ocorrer:

  • Dificuldade em reconhecer familiares e amigos;
  • Perder-se em ambientes conhecidos;
  • Alucinações, inapetência, perda de peso, incontinência urinária;
  • Dificuldades com a fala e a comunicação;
  • Movimentos e fala repetitiva;
  • Distúrbios do sono;
  • Problemas com ações rotineiras;
  • Dependência progressiva;
  • Vagância;
  • Início de dificuldades motoras.

Retirado de: http://www.alzheimermed.com.br/

O processo avaliativo se deu através de testes não protocolares de memória e linguagem (compreensiva e expressiva).

Quanto ao comprometimento de Linguagem, observamos:

  • Afasia - perturbação da linguagem, com prejuízos de Compreensão e de Expressão, sendo a linguagem expressiva mais notoriamente prejudicada;
  • Apraxia - capacidade prejudicada de executar atividades motoras, apesar de um funcionamento motor intacto;
  • Agnosia - capacidade prejudicada de reconhecer ou identificar objetos, apesar de um funcionamento sensorial intacto;
  • Perturbação do funcionamento executivo - planejamento, organização, seqüenciamento, abstração.

Retirado de: http://virtualpsy.locaweb.com.br/

Em relação à Fala propriamente dita, verificamos:

  • Repetição de Palavras - articulação fonêmica adequada;
  • Fala Espontânea - inicia a frase adequadamente quanto à articulação fonêmica, porém, há um declínio articulatório que culmina em um discurso inacabado. Tal declínio é evidenciado de duas formas: (1) bloqueios e repetições fonêmicas e/ou de palavras e (2) interrupção do discurso oral;

É importante ressaltar que, didaticamente, é interessante analisar Fala, Linguagem e Cognição isoladamente, entretanto, tais processos são interligados e interdependentes.

Evolução do Caso

Nos primeiros meses, Laura mostrava-se muito sonolenta, sendo necessário apresentar uma grande variedade de estímulos sensoriais, numa abordagem unimodal, ou seja, selecionando e estimulando apenas um canal sensorial por vez. Desta forma, conseguíamos nível de alerta “suficiente” para a aplicação do instrumento.

Durante o Processo de Mediação utilizando o PEI B, Laura sugeria estabelecer algumas relações perceptivas, quando, por exemplo, executava a tarefa de unir os pontos (Organização de Pontos PEI B) a partir de mediação verbal associada à mediação motora. Porém, a execução declinava e era interrompida talvez, não por acaso, da mesma forma que ocorria no Discurso Oral. Podemos levantar a hipótese de que, sendo o Planejamento uma Função Cognitiva mediada pela linguagem (assim como tantas ou, senão, todas as outras Funções Mentais), o déficit de tal função irá se manifestar na execução de qualquer tarefa (o planejamento antecede a execução), já que a Linguagem encontra-se, igualmente, em constante degeneração.


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