Repercussões da Artrite Reumatóide na Mecânica da Deglutição

22.09.2007 | Andréa Gonçalves

O texto abaixo é um resumo. Para ler na íntegra clique aqui… »

crânios

Figura 1.Movimentos mandibulares

Por volta de 2003, época em que prestava serviços para outra empresa de fonoaudiologia, atendi um caso de disfagia orofaríngea numa paciente com diagnóstico de Artrite Reumatóide. Achei interessante postar aqui em nosso blog, já que encontrei pouca literatura fonoaudiológica a respeito.

O objetivo desse estudo é obter informações acerca da Artrite Reumatóide, bem como suas implicações na mecânica da deglutição.

As alterações da relação entre a postura da coluna cervical e o mecanismo do complexo hiolaríngeo, bem como as disfunções de ATM, geram como conseqüência, uma desarmonia morfofuncional do sistema estomatoglossognático, podendo gerar impacto importante na função normal de deglutição.

Para melhor compreensão do caso que será relatado, é importante mencionar, de forma sucinta, alguns tópicos quanto á Artrite Reumatóide.

Artrite Reumatóide

    Definições

  • Doença inflamatória crônica sistêmica ou degenerativa, de uma ou várias articulações. Fernandes, et al (1998), Rothenberg (1981) e Souza (1998)
  • Envolvimento inflamatório progressivo das estruturas articulares, iniciando pela membrana sinovial e estendendo-se às superfícies articulares. Zegarelli, et al (1981)
  • Afecção básica de estruturas articulares, mas não exclusivamente articular, pois pode apresentar acometimento visceral e de outros tecidos como pulmões, pleuras, vasos e nervos. Klippel (1998)

Etiologia e Freqüência

Trata-se de uma doença auto-imune inflamatória crônica de etiologia desconhecida, caracterizada por sinovite simétrica erosiva e, algumas vezes, comprometimento sistêmico. Vários centros de pesquisa avaliam a possibilidade de uma etiologia infecciosa para a doença (vírus Epstein-Barr, parvovírus B19 e vírus da rubéola), mas ainda não existem evidências conclusivas.

As doenças reumáticas são muito freqüentes e ocupam o segundo lugar dentre as patologias crônicas, perdendo apenas para os distúrbios cardíacos. Acredita-se que, de cada cem pessoas em todo o mundo, vinte e cinco sofram de algum tipo de doença reumática, representando, inclusive, uma das causas principais de afastamento do trabalho.

Esta patologia acomete ambos os sexos, no entanto, é mais comum em mulheres entre 40 e 60 anos. Pode ocorrer a partir da segunda infância, sendo caracterizada como Artrite Reumatóide Juvenil (ARJ).

A anemia é uma manifestação particularmente comum da ARJ, associada à febre elevada e outros aspectos extra-articulares. Em geral, a anemia relaciona-se à gravidade da doença e responde à terapia parenteral com ferro – a suplementação oral não apresenta bons resultados.

Tópicos importantes para o estudo da
Disfagia Orofaríngea em casos de AR

Manifestações Relevantes ao Diagnóstico

Dentre as queixas relacionas á AR, existem aquelas relevantes quanto ao desencadeamento da patologia Disfagia Orofaríngea, a qual pode ser identificada pelo fonoaudiólogo e que deverá ser tratada por este profissional:

  • Xerostomia – pela perda da função salivar normal
  • Anorexia – redução de apetite gerando disfunção alimentar
  • Atrofia de pele e músculos – intimamente ligado a todo sistema estomatoglossognático
  • Depressão – muitas vezes, pela privação nas AVDs
  • Disfunção Cognitiva – desorientação têmporo-espacial; alteração das funções cognitivas Atenção e Memória
  • Disfunção de ATM – prejudicando a Fase Oral da deglutição
  • Sinovite das articulações cricoaritenóides (rouquidão, dor, disfagia)
  • Rigidez cervical (limitação de movimento anterior, lateral e posterior) – compromete a elevação do complexo hiolaríngeo
  • Manifestações cardíacas, pulmonares e neurológicas

Sistema Estomatoglossognático

Localizado anatomicamente no território crânio-cervico-facial, é um complexo conjunto de músculos, ossos e espaços orgânicos que, a partir da coordenação do SNC, desempenham as funções de digestão, fonoarticulação, mastigação e postura de cabeça. Desempenha importante papel nas funções de gustação e respiração.

As estruturas anatômicas envolvidas são:

  • Ossos – da face, hióide, clavícula, esterno e coluna cervical;
  • Articulações – dento-alveolar ou periodonto, temporo-mandibulares, vertebrais (tanto entre coluna cervical e crânio como intervertebrais em nível cervical alto);
  • Músculos – faciais, mandibulares, infra-hióideos e cervicais;
  • Órgãos – dentes, língua, lábios, bochechas, palatos duro e mole e glândulas salivares;
  • Sistema vascular – artérias, veias e vasos linfáticos;
  • Sistema nervoso – central e periférico inter-relacionados.

Articulação Temporomandibular

Trata-se de uma ligação móvel entre o osso temporal e a mandíbula. Corresponde à duas articulações que não podem trabalhar de forma independe.

É uma articulação sinovial e produz líquido sinovial, que nutre e lubrifica as estruturas mandibulares.

Bianchini (1998)

As disfunções de ATM, frequentemente, encontradas em casos de AR são:

  • Limitação acentuada dos movimentos mandibulares;
  • Mordida anterior aberta e desvio mandibular acentuado.

Relação entre a Postura da Coluna Cervical e o Complexo Hiolaríngeo

alinhamento biomecânico

Figura 2.Alinhamento Biomecânico

Trabalhos recentes têm destacado a biomecânica deste complexo, relacionando-a as funções desempenhadas pelo sistema estomatoglossognático, principalmente, Mastigação e Deglutição.

O papel atribuído ao osso hióide como estabilizador da mecânica do funcionamento dos músculos supra e infra-hióideos confere a este a importância associada aos atos de mastigar e deglutir.

Este processo postural depende da integração e inter-relação dos muitos fatores que influenciam o sistema somático: estrutura anatômica, fisiologia, biomecânica e psicológica.

O posicionamento do osso hióide varia com a tipologia facial, maloclusão, respiração bucal, hábitos de deglutição atípica e extensão da cabeça, estando diretamente relacionado aos movimentos mandibulares, á postura de língua e, consequentemente, influenciando as funções da Deglutição, Mastigação e Fonação.

Rocabado (1984) afirma que o osso hióide é uma estrutura relacionada a outras, tais como mandíbula, crânio e coluna cervical. Servindo de inserção para músculos, ligamentos e fascia, justifica-se a importância de seu alinhamento, favorecido pela postura de cabeça (coluna cervical).

Para manter a posição ortostática são necessários músculos cervicais posteriores bem desenvolvidos. Este mantém o peso da cabeça contra a gravidade, sendo de maior importância o esternocleidomastóideo e os elevadores da escápula.

Temos, ainda, a ação dos músculos supra-hióideos, que promovem uma tensão mandibular entre a cabeça e o pescoço.

Apresentação do caso clínico

Investigação – anamnese e avaliação

Anamnese

Senhora de 82 anos de idade com queixas de deglutição, com histórico de pneumonias de repetição, sendo a última, motivo de internação.

Alimenta-se por via oral exclusiva, em consistência pastosa; engasga, frequentemente, com líquido fino e, por vezes, com própria saliva. Diagnóstico de Artrite Reumatóide e Disfagia Orofaríngea.

Avaliação

Cognição – comunica-se oralmente com razoável padrão articulatório. Necessita de mediação para orientar-se no tempo e espaço.

Por vezes, apresenta discurso incoerente, sugerindo alterações de linguagem.

Sistema Estomatoglossognático – movimentos lentificados de OFAs (órgãos fonoarticulatórios), hipofuncionamento de musculatura peri-oral e presença de tremor, comprometendo a estabilidade de OFAs.

Voz – tempos de fonação reduzidos, indicando prejuízo de fechamento glótico.

Deglutição – Na prova com líquido fino, ocorre falta de sustentação laríngea e dessatura 2%, o que sugere risco de broncoaspiração.

Com o líquido espessado, há melhor desempenho quanto à mecânica da deglutição, porém, há tosse após deglutir, com queda de saturação de oxigênio em 2%.

Esta paciente passou por intervenção fonoterápica com objetivo de propiciar ganho funcional de controle oral e alcançar alimentação segura por via oral. Orientamos a paciente a procurar avaliação do nutricionista quanto suas condições de nutrição e hidratação.

Aplicação – Intervenção fonoterápica

Abaixo, o esquema do plano fonoterápico elaborado para o caso:

  • Favorecer o alinhamento biomecânico:
    1. Postura de cabeça
    2. Relaxamento e alongamento de musculatura da região cervical e cintura escapular
    3. Estabilidade de OFAs
  • Adequação de tônus:
    1. Termoterapia
    2. Massagens
    3. Mioterapia
      • isotônicos
      • isométricos
      • isocinéticos
  • Funções Estomatopônicas:
    1. Sucção
    2. Mastigação
    3. Respiração
    4. Fala
    5. Deglutição (consistências variadas)
  • Estimulação Cognitiva

Quadro após a intervenção da fonoaudiologia

  • Orientada no tempo e espaço
  • Adaptação de próteses auditiva e dentária
  • Sistema estomatoglossognático
    • Destreza nos movimentos de OFAS
    • Melhora de coordenação
    • Estabilidade de OFAs
  • Deglutição – de forma segura e sem riscos de broncoaspiração
    • Líquido
    • Líquido espessado
    • Pastoso
    • Sólidos umidificados

A função da fonoterapia não é tratar a doença de base, mas sim minimizar os sintomas, proporcionando aos pacientes uma melhora de sua qualidade de vida.

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Fonoaudiologia e PEI na Doença de Alzheimer

10.08.2007 | Tatiana Jorgensen

Kombuwa

Figura 1. Cérebro humano deteriorado

Queremos compartilhar a evolução do caso de uma senhora, com quadro neurológico de Doença de Alzheimer (DA), que vem sendo atendida há um ano e quatro meses. O plano terapêutico tem, como base, a Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural e os recursos selecionados são PEI Básico e Fonoterapia Convencional direcionada à alterações de Linguagem/fala.

Para identificar a paciente, adotaremos um nome fictício. Laura, 76 anos, mora com um dos filhos e é acompanhada por excelentes cuidadoras. A família é bastante participativa e interessada no tratamento da doença e na melhoria da qualidade de vida desta senhora.

Etapas do Tratamento

Durante os oito meses inciais, aproximadamente, permaneciam na sala de atendimento, a fonoaudióloga e aplicadora do PEI, a especialista em mediação e a cuidadora. O objetivo da presença da cuidadora é tornar consciente a importãncia de seu papel como mediadora ao lidar com Laura. Nessa etapa, aplicamos as primeiras páginas do Instrumento Organização de Pontos (PEI Básico), associando essa ferramenta a outras estratégicas terapêuticas necessárias.

Do oitavo mês até Abril de 2007, iniciamos um trabalho específico para as questões da Linguagem e Fala através da Fonoterapia Convencional. É importante ressaltar que, em nossa opinião, não há como dissociar tais questões do aspecto cognitivo. Portanto, embora tenham sido utilizados, nessa fase do tratamento, outros recursos que não os Instrumentos do PEI B, toda a estimulação baseou-se nos conceitos da Experiência de Aprendizagem Mediada.

Funções Mentais Superiores como Identificação, Comparação e Classificação foram requisitadas nessa etapa, lembrando que a seleção dos conceitos e atributos foi bastante criteriosa levando em conta o nível de compreensão demonstrado pela paciente. Tratando-se de um quadro neurológico degenerativo onde conceitos e funções já foram “perdidas”, citamos a Plasticidade Neuronal, onde é possível que, mesmo “perdidas”, se manifestem em algum grau.

Parece pertinente deixar, aqui, um questionamento acerca desse assunto:

Até que ponto as Patologias Neurológicas Progressivas permitem a “reativação” de Funções Cognitivas consideradas ausentes por falta de manifestação destas em AVDs e/ou nas testagens realizadas por estudiosos e profissionais diversos?

para saber mais…

Programa de Enriquecimento Instrumental
18.08.2007

Conhecido no Brasil como PEI, o programa é um método de estímulo cognitivo que objetiva otimizar o potencial de aprendizagem, tornando o indivíduo autônomo no processo do aprender. Baseado na teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural de Reuven Feuerstein, o programa é ministrado por mediadores formados pelo Núcleo do Desenvolvimento do Potencial Cognitivo.

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Plasticidade Neural e Alzheimer
02.09.2007

“Pesquisas recentes têm se voltado para o estudo da plasticidade neural em idosos saudáveis e com DA, e seus últimos achados têm sido animadores, pois há a hipótese de que por meio da ativação de áreas seletivas do cérebro durante a vida este pode ter a possibilidade de se proteger contra o processo degenerativo (Rosenzweig e Bennett, 1996). Além disso, há suposições de que certo nível de plasticidade neural persiste durante a terceira idade e na DA.”

Ana Maria Alvarez

Renata Ávila

Isabel Albuquerque M. de Carvalho

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